Deixa-os desprezar-me. Isso não me importa
Por que tu, mais belo, te irás importar?
Meus lábios pousaram sobre o teu cabelo
Tantas vezes, tantas nos lábios e tantas
Nos teus braços que inda fingem repousar
Nos coxins de meus sonhos como algo vago e belo…

Deixa-os falar. A vida é bela se teus lábios são
Vida. O amor é belo se tu és amor.
Os que falam não sabem o que os beijos escondem
Do nosso coração palpitante ao coração,
Nem provam a posse plena que nosso amor selvagem
Sabe encenar em acções perversas, como um final
De império que sucumbe entre as galés e mistura
Seu poente com o verde-esmeralda da paisagem.

Deixa-os falar. Prende a tua mão nesta minha mão
E amemo-nos como o rapaz a rapariga ama.
Mas nós somos outros e o amor é chama
Em nossas almas que vibram em compreensão.
Oh, para a tua cama!

Para a tua cama, mais bela que leitos de virgens
E para a estranheza velada com estranho cuidado;
Vamos para lá e nus nos beijemos em carícias
Que, vindas de quentes sonhos, o prazer transcendem,
Vivido em nossos corpos o prazer pensado.
A mágica tristeza em nossos nomes casada
Iluminará o futuro de estranheza apaixonada.

Antínoo!

 


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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