No copo de cristal nos reflectimos, nele vejo 
o meu sorriso a lamber-te o ventre. 
Dentro de ti percorro galerias / dunas 
que marulham como praias / alongo-me 
por dobras, nervos, veias, toco na fonte 
do olhar que se fecha, da respiração 
que transporta o lume da pele estremecida, 
campos de pasto onde relincham rosas.
A tua beleza entra-me na carne / o amor 
abre novas terras / que ave de matinas 
canta dentro de nós, nos une margens,
no percorrer da língua, no fio da anca,
no gume da virilha? Em ti, como num búzio, 
sorvo a luz mais íntima / No meu corpo 
estás, como a forma da água / Poderei 
abrigar-te sempre, em dias de chuva, 
no silêncio da insónia, quando a solidão 
subir ao rosto e alguns versos barrocos 
se tiverem escrito para o reboco da ausência. 
Traço agora aqui o meu destino / nesse copo
o ergo / bebo no teu sexo o vinho claro / 
O pelicano regressa, o seu longo bico 
toma a forma de arado / rasga e acaricia 
como na língua o sulco do teu nome. 


In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
[[NO COPO DE CRISTAL NOS REFLECTIMOS NELE VEJO]]
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