Noite da Raça! Paira no horizonte
Um rigor frio. Se anuncia o dia
Porque tardam a ‘sprança e a cotovia
E a leve luz no píncaro do monte?

Noite nas obras e nos corações,
Cansaço inútil pelas almas indo,
Como por portas sem abrir, pedindo,
Restos de fé, migalhas de ilusões...

Geração do martírio e da derrota,
Gerada à luz sombria de um presságio,
Acordámos no exílio e no naufrágio,
E pátria era de céu e grande a frota!
 
O veneno de estéreis esperanças
A confiança vã em guias cegos,
A nós sem fé, a nós já sem apegos
A passado nenhum, homens, crianças,

Conduzirei ao declive e aos apagados
Fins do vale da □
E descansados à sombra dos cimos
Não tememos a morte, de cansados.
 
Ó deusa tutelar da decadência
Senhora do Crepúsculo das raças,
Com o sopro frio de passar’s repassas
Nosso amor, nossa fé, nossa ciência,
 
Prende a tempestade o duro morno
Do ar desta luz que temos, luz de eclipse,
Sem desastre de fim e apocalipse
Ruem os céus e a alma em nosso torno.
 
Ó noite universal, se não vens dar-me
‘Sp’rança que eu use ou dom de que me gabe,
Deixa que eu durma, deixa que eu acabe
E que a luz nunca venha despertar-me!

25 - 12 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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