Não me perguntes por que estou triste…
Fico mais triste por não poder
Dizer-te porque esta dor existe.
E nunca cessa de me vencer.

Ah, ausente lugar da minha mágoa,
Numa ilha cheia de sol e flores
Deve haver ritmos de brisas e água
Batendo às almas por paz e amores.

Deve haver dias ali felizes,
Horas que passam sem se falar…
Ó morte dize-me em que países
Guardas a vida de além do Mar?...

Dize baixinho no meu ouvido,
A que distância deste meu ser
Puseste aquilo que eu hei perdido
Antes de a vida me conhecer…

E depois leva-me até essa ilha,
Leva-me longe, perdido em ir…
Ah, o rasto da água que ao luar brilha!
Ah, a viagem para Existir…!

12 - 4 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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