O carro de pau
Que bebé deixou...
Bebé já morreu,
O carro ficou...

O carro de pau
Tombado de lado...
Depois do enterro
Foi assim achado...

Guardaram o carro,
Guardaram bebé...
A vida e os brinquedos —
Cada um é o que é.

Está o carro guardado...
Bebé vai esquecendo...
A vida é p’ra quem
Continua vivendo...
 
E o carro de pau
É um carro que está
Guardado num sótão
Onde nada há...

A vida é a mesma
Esquecida, curiosa...
Quem sabe se o carro
Sente alguma cousa?...

26 - 4 - 1926

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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