Não te esqueças de mim, Mãe natureza,
Não te esqueças de mim que sou teu filho
E há tanto tempo e tanto em mágoa trilho
Os caminhos humanos da incerteza.

Sob meu corpo febril da mágoa presa
Põe o teu braço — que eu por dor perfilho
Teu gesto compassivo a que me humilho,
Deita-me, embala, e por minha alma reza.

Mãe da alegria e do fragor da luta
Sê para mim crepúsculo e sossego,
Jorna de paz da alma que labuta...
Ponho a teus pés a vida que renego.

26 - 6 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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