No círculo feito na erva ao luar,
      Vejo-as dançar.
A um lado e outro no luar que falha
      Vêm e vão,
E a dança que dançam luar espalha
      No meu coração.
Danças pequenas até que a mágoa
      Com um som de água
Marulha contra o meu ser estranho
      E anseia a achar
E a sombra de tudo quanto não tenho
      Me vem afagar
O amor inútil, o sonho morto
      O incerto porto,
A busca estéril das mágoas verdes
      O rio em dor
E fica agora, ao luar na relva
      Da vaga selva,
Meu coração desolado — frio
      Ao luar vazio.

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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