Meus gestos não sou eu,
Como o céu não é nada.
O que em mim não é meu
Não passa pela estrada.

O som do vento dorme
No dia sem razão.
O meu tédio é enorme
Todo eu sou vácuo e vão.

Se ao menos uma vaga
Lembrança me viesse
De melhor céu ou plaga
Que esta vida! Mas esse

Pensamento pensado
Como fim de pensar
Dorme no meu agrado
Como uma alga no mar.

E só no dia estranho A
o que tenho’ e que sou,
Passa quanto eu não tenho,
‘Stá tudo onde eu não estou.

Não sou eu, não conheço.
Não possuo nem passo.
Minha vida adormeço;
Não sei em que regaço.

24 - 10 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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