O teu nome é um vocábulo 
de amor, uma carícia 
que a língua desenvolve. 
Não o posso pronunciar 
em voz alta 
quando não estou só. As 
respirações alheias 
corrompem: poderia 
dissolver-se no vento, 
fragmentar-se, 
perder 
o seu mistério indecifrável, 
desviar 
a flecha do seu alvo. 
Pronuncio-o eliminando 
o som, duas sílabas 
que rolam no meu corpo, abrem os poros e, 
pelos olhos, 
enviam a mensagem necessária 
ao suporte de Outubro. 
Tudo canta, rodeando o silêncio, 
a ligeira brisa que perfuma 
as letras 
quando passas a porta 
e o teu sorriso doce 
avança para mim. 
A garganta abre-se, 
as sílabas esvoaçam, transformam 
o espaço em música, 
os acordes da água: 
o meu corpo é agora um piano 
onde a alegria abre 
a felicidade, as suas asas. 

28 - 10 - 1994

In A FERIDA AMÁVEL , Campo das Letras, 2000
Egito Gonçalves
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