Chamou uma voz do monte;
      Não sei se chamou por mim.
Sei que está ali defronte
      E chama sem nenhum fim.

Porque é que só eu a ouço
      E sinto na alma que fala
A qualquer cousa que posso
      E o meu poder não iguala?

De além de espaços etéreos
      Se me estende o coração,
Vinda através dos mistérios,
      Aquela invisível mão

Que ergueu o Mestre sepulto
      E o converteu no seu ser.
Mas esse prodígio oculto
      Ainda em mim é só morrer.

 

11 - 8 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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