Mãos de tecedeira
Mãos apenas... fiando
Horrorosamente
Numa sem-canseira
Da noite espreitando
Mãos e pulsos. Doente
De pavor silente
Não posso não as estar fitando...

Tecem num tear
Que apavora dele...
Tecei, mãos sem vida
Mãos feitas de um luar
Que é, é, vossa pele,
Dum tear que é guarida
De quanto convida
A alma e a repele.

Tecei-me com fios
De sonho e mistério
Novos universos
Dentro em mim, vazios,
Muito lírio aéreo,
Murmúrios dispersos
Secos sons, imersos
Num não-ser sidério.

Gota a gota as horas
Caem-me no peito...
Tecei, mãos alheias
A vós próprias, noras
Da água do imperfeito...
Tecei morte... cheias
De Ontem, mãos sem veias
Nem cor, mãos-defeito...

 

 

 

18 - 3 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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