26-5-1946 
 
 
Aos fracos e aos covardes 
não lhes darei lugar 
dentro dos meus poemas. 
Covarde já eu sou. 
Fraco, já o sou demais, 
e se entre fracos for 
me perderei também. 

Quero é gente animosa 
que olhe de frente a Vida, 
que faça medo à Morte. 
Com esses quero ir, 
a ver se me convenço 
de que também sou forte. 
Quero vencer os medos... 
Vencer-me — que sou poço 
de estúpidos terrores, 
de feminis fraquezas. 
Rir-me das sombras, 
rir-me das velhas ondas 
bravas, rir-me do meu temor 
do que há-de acontecer. 

Venham comigo os fortes... 
Façam-me ter vergonha 
das minhas covardias. 
E de seus actos façam 
(seus actos destemidos) 
chicotes p’rós meus nervos. 
Ganhe o meu sangue a cor 
das tardes das batalhas. 
E eu vá — rasgue as cortinas 
que velam o Porvir. 
Vá — jovem, confiado, 
cumprindo o meu destino 
de não ficar parado. 


In CABO DA BOA ESPERANÇA , Ática, 1993
Sebastião da Gama
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