Soa o chicote do castigo
Por trás das costas do forçado.
Mas se o forçado é inimigo
De receber esse castigo
O açoite dado nunca é dado.

Por mais que a sorte queira dar
Obstáculos a quem quer ir,
Se ele disser que os não vê estar,
Eles por si se hão-de arredar,
E ele por si há-de seguir.

Tudo é, no mundo ou no outro mundo,
O que pensamos na vontade.
Tudo é o nosso ser profundo.
De meu imaginar me inundo,
E o mundo externo não me invade.

Se houver em mim a força e a imagem,
A imagem de outro ser não tem —
Seja ela o mundo ou a paisagem
De um outro espírito — vantagem
Contra o que eu imagino bem.

Por isso, alheio a menos que eu,
Figuro o que desejo, e dou
Ordens ao mundo, porque é meu.
E meto na algibeira o céu
No próprio lugar em que estou.

23 - 10 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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