(Lembrança dum desenho de Júlio.)


Dá-me a tua mão
vamos passear
nas nuvens do chão,
nas pedras do ar.

Anda como estás,
nua como és...
(Nascem rosas-chás
onde pões os pés.)

Vem, vem mesmo assim,
que ninguém repara.
(Não ponhas carmim
por dentro da cara.)

Vamos como espectros
nos ventos voados.
A 200 metros
por sobre os telhados.

Vamos, tu e eu,
pairar na planície,
Outra vez o Orfeu
com a Eurídice.

Eurídice nova
— morta imaginária —
que eu roubei à Cova
da Morte Diária.

Ah! morta e bem morta,
embora com vida
— frio de outra porta
no muro fingida.

Mas agora vamos
ambos de mãos dadas...
nas nuvens... nos ramos...
nas sombras voadas...

 


In Idílio de Recomeço
José Gomes Ferreira
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