Voam gaivotas rente ao chão.
Dizem que é chuva a ir chegar.
Mas não, neste momento não:
São só gaivotas rente ao chão
Só a voar.

Assim também se há alegria
Dizem que a dor nos vem.
Talvez. Que importa? Se este dia
Tem aqui a sua alegria,
Que é que a dor tem?

Nada: só o rastro do futuro.
Quando vier ficarei triste.
Por ora é o dia bom e puro
Hoje o futuro não existe.
Há um muro.

Goza o que tens, ébrio de seres!
Deixa o futuro onde ele está.
Poemas, vinho, ideais, mulheres -
Seja o que for, se é o que há,
Há para o teres.

Mais tarde ... Mais tarde sê
O que mais tarde te for dando.
Por ora aceita, ignora e crê.
Sê rente à terra, mas voando,
Como a gaivota é.

18 - 5 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar