Senhor, meu passo está no Limiar
      Da Tua Porta.
Faze-me humilde ante o que vou legar…
      Meu mero ser que importa?

Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho
      De Ti em mim,
Faze que eu seja o claro e humilde engenho
      Que revela o teu Fim.

Depois, ou morte ou sombra o que aconteça
      Que fique, aqui,
Esta obra que é tua e em mim começa
      E acaba em Ti.

Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo
      — Verdade e Lei —
O resto sou só eu e o ermo mundo…
     E o que revelarei.

A névoa sobe do alto da montanha
      E ergue-se à luz.
O claro cimo que a Tua luz banha
     Sereno e claro e a flux.

Eu quero ser a névoa que se ergue
     Para Te ver
A humanidade sofredora é cega —
     O resto é apenas ser…

 


15/16-11-1915

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar