triste, tenebroso, cruel dia,
amanhecido s para meu dano,
pudeste-me apartar daquela vista,
por quem vivia com meu mal contente.
Ah! se o supremo foras desta vida,
que em ti se comeara a minha glria!

Mas como eu no naci para ter glria,
seno pena que crea cada dia,
o Cu me est negando o fim da vida
por que no tenha fim com ela o dano;
para que nunca possa ser contente,
da vista me tirou aquela vista.

Suave, deleitosa, alegre vista,
donde pendia toda a minha glria,
por quem na mor tristeza fui contente:
quando ser que veja aquele dia
em que deixe de ver to grave dano,
e em que me deixe to penosa vida?

Como desejarei humana vida,
ausente de ũa mais que humana vista,
que to glorioso me fazia o dano?
Vejo o meu dano sem a sua glria;
minha noite falta j seu dia;
triste tudo se v, nada contente.

Pois sem ti j no posso ser contente,
mal posso desejar sem ti a vida,
sem ti j ver no posso claro dia;
no posso sem te ver desejar vista;
na tua vista s se via a glria,
no ver a glria tua ver meu dano.

No via maior glria que meu dano,
quando do dano meu eras contente;
agora me tormento a maior glria,
que pode prometer-me Amor na vida;
pois tornar-te no pode minha vista,
que s na tua achara a luz do dia.

E pois de dia em dia cresce o dano,
no posso sem tal vista ser contente;
s com perder a vida acharei glria.

 

Luís Vaz de Camões
[Ó TRISTE Ó TENEBROSO Ó CRUEL DIA]
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