De além das montanhas,
De além do luar,
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.

Cavalgada rindo,
Seu curso de além,
Tem vindo, tem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
E os ramos, rugindo,
Falam como alguém.

Mas, de súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.

E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quasi se apaga
Quem sabe se ela
Vai também levada
Como tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?

 

5 - 9 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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