Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é um mel?

Calmo, tentou afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas ai!,
—A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misteriosa, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quasi febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar —
E eu lentamente morria
— Como um perfume no ar!


      In Adolescente


In As Canções de António Botto - Primeiro volume das obras completas
António Botto
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