Quando cuido no tempo que, contente,
Vi prolas, neve, rosa e ouro,
Como quem v por sonhos um tesouro,
Parece tenho tudo aqui presente.

Mas tanto que se passa este acidente,
E vejo o quo distante de vs mouro,
Temo quanto imagino por agouro,
Por que de imaginar tambm me ausente.

J foram dias em que por ventura
Vos vi, Senhora, se assi dizendo posso,
Co corao seguro estar, sem medo;

Agora, em tanto mal no me assegura
A prpria fantasia e nojo vosso:
Eu no posso entender este segredo!

Luís Vaz de Camões
[QUANDO CUIDO NO TEMPO QUE CONTENTE]
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