De novo traz as aparentes novas
Flores o verão novo, e novamente
       Verdesce a cor antiga
       Das folhas redivivas.
Não mais, não mais dele o infecundo abismo,
Que mudo sorve o que mal somos, torna
       À clara luz superna
       A presença vivida.
Não mais; e a prole a que, pensando, dera
A vida da razão, em vão o chama,
       Que as nove chaves fecham,
       Da Stige irreversível.
O que foi como um deus entre os que cantam,
O que do Olimpo as vozes, que chamavam,
       Scutando ouviu, e, ouvindo,
       Entendeu, hoje é nada.
Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.
Quem coroais, não coroando a ele?
       Votivas as deponde,
       Fúnebres sem ter culto. 
Fique, porém, livre da leiva e do Orco,
A fama; e tu, que Ulisses erigira,
       Tu, em teus sete montes,
       Orgulha-te materna,
Igual, desde ele às sete que contendem
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
       Ou heptápila Tebas
       Ogígia mãe de Píndaro.

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[DE NOVO TRAZ AS APARENTES NOVAS]
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