ESCREVO À TUA memória, amor, sem teres morrido,
E à memória desse amor, em nós nunca sabido.

Éramos rapazes, tu eras mais novo e eu o maior.
Tivéssemos sabido amar e ter-nos-íamos amado.
Tivéssemos descoberto o caminho do amor e teríamos achado
Seus prazeres, mas, jovens então, era de irmãos nosso amor.

Contudo, se te encontrasse hoje, talvez tudo fosse igual.
Tenho vergonha agora de ser o que não sabia outrora.
Talvez fosse melhor tal como foi — pois a chama virginal
Do amor não levou nossos sentidos ao fogo pleno e pior.

Lembro-te muito e a alma suspira tristemente em mim.
Recordas-me também algumas vezes e sentes algo assim?

Hoje sei que teria sido melhor termo-nos amado,
Hoje sei isso, mas não quero pensar demasiado.

Eras atraente e belo; eu não: apenas amava.

Cava-se mais em mim a marca desta doença antiga
Que só os gregos, porque eram belos, tornaram bela.


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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