Escuta-me piedosamente. 
Não vale a pena amar-me não, 
Mas o que o meu coração sente — 
Ah, quero que te passe rente 
À ideia do teu coração... 

Quero que julgues que podias 
Se quisesses, amar-me. Só 
Saber isso consolaria 
Minha alma erma de alegria... 
Ter a certeza do teu dó!... 

Teu dó, o teu quasi carinho... 
Qualquer sentimento por mim... 
Que não me deixasse sozinho... 
Eu posso construir um ninho, 
Com o pouco que me vem de ti... 

Eu tenho de mim tanta pena 
Qu’ria ao menos que tu também 
Viesses ter pena serena 
Não de mim ou da minha pena, 
Essa pena que ninguém tem. 


c. 2-10-1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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