Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão,
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve…

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida.

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu
Sem o querer
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério
Súbito e etéreo
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

9 - 5 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar