O cais, navios, o azul dos céus —
Que será tudo isto como o vê Deus?

Que forma real tem isto tudo
Do lado de onde não é absurdo?

Olho e de tudo me perco e o estranho.
É como se tudo fosse castanho —

O cais — que irreal de pesado e quedo
Os mastros dos barcos estagnam medo

O céu azul é sem razão céu..
Mostrou-se tudo seu próprio véu

E agora erguendo-se na hora incerta
O mundo fica uma porta aberta

Por onde se vê, simples e mais nada,
Uma outra porta sempre fechada.

Entre a vida e o sonho, entre o sol e Deus
Há enormes abismos pálidos e ateus...

26 - 11 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar