Suavemente embala.
       Levemente beija.
Tudo em mim se cala.
      Nada em mim deseja.

O meu próprio anseio
      Cessa um momento.
Como o arfar de um seio
      Para o pensamento.

Não sei se te escuto,
      Vaga melodia,
Se erro no absoluto

Nunca cesses! Deixa
      Que o meu coração
Não mais tenha queixa,
      Não mais bata em vão!

Levemente suave,
      Aérea, sem mim,
Vago voo de ave,
      Fino arfar sem fim...

Ah, não cesses! Cesso
      Meu coração morto

Deixa! Cala! Perto?
      Longe? Nada. A acordar
Que mais há que o incerto?
      Deixa-me sonhar....

Leve... Nem me deixes
Sabe-rme a sonhar...

27 - 1 - 1918

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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