Nunca os vi nem lhes falei
E eles me têm guiado
Segundo a forma e a lei
Do que, inda que conhecido,
Tem que ficar ignorado.

Nunca li o livro ocluso
Nem vi o túmulo aberto,
Mas, em meu claustro recluso,
Vendo o céu só pela luz,
Senti a verdade perto.

Não foi o mestre incorrupto
Nem O que foi exumado
Que me fez colher o fruto
Que guarda em seus quatro gomos
O segredo do pecado.

Mãos do meu Anjo da Guarda,
Que bem guiais, como dois,
O meu ser que teme e tarda,
Postas firmes nos meus ombros
Sem que eu saiba de quem sois!

Vou pela noite infiel
Sentindo a aurora raiar
Por trás do alguém que me impele;
Mas já adiante de mim
Vejo o dia a começar.

9 - 5 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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