Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa...
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A hora se escoa...

Tudo tão inútil!
Tão como que doente,
Tão divinamente
Fútil-- ah, tão fútil...
Sonho que se sente
De si-próprio ausente...

Naufrágio no ocaso...
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso...
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que tarde me invade?)

Porque lento ante ela,
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Porque é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...

23 - 3 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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