Entre mim e a vida há uma ponte partida 
Só os meus sonhos passam por ela...
Às vezes na aragem vêm de outra margem
Aromas a uma realidade bela;

Mas só sonhando atravesso o brando
Rio e me encontro a viver e a crer...
Se olho bem, vejo — pobre do desejo! —
Partida a ponte para Viver.

E então memoro num □ choro
Uma vida inteira que nunca tive
Em que era inteira a ponte inteira                                                □
E eu podia ir para onde se vive

E então me invade uma saudade
Dum misterioso passado meu
Em que houvesse tido um outro sentido
Que me falta p’ra ser, não sei como, eu.

 

26 - 11 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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