O som da chuva lá fora, —
Pingos, vento, triste som, —
Junta qualquer coisa à hora
Que faz dormi-la ser bom.

Dá um sentimento vago
De que não ser é um bem,
Como se à margem de um lago
Nunca estivesse ninguém.

Um som de chuva na noite
Com tudo fechado e quedo.
Que o coração não se afoite
Porque existir é segredo.

Um som de chuva lá fora
Sem que se veja chover...
Dormir... Nunca ter agora...
Noite sem dia... Esquecer...

27 - 3 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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