Ama, canta-me. Eu nada quero
      Do mundo ouvir.
Sofro e, se penso, desespero.
      Eu quero dormir.

Um sono em que a alma se esqueça,
      Vazio embalar
Que o som do teu canto por fim desfaleça
      E eu durma sem sonhar.

Como malmequeres, para em minha sorte,
      Os meus sonhos desfolhei.
Tenho medo da vida, tenho medo à morte.
      Nunca tive o que amei.

Que a tua canção seja um nada, um afago,
      Como o som longe do mar.
Eu quero dormir, Ama, as dores que trago
      Só assim podem acabar.

Criança que vê os outros brincando
      Sem brinquedos, e sem companhia…
Conta-me, ama, vá-me o sono levando
      Como uma melodia…

Nocturna esperança feneceu no outono,
      Sussurro, secaram as águas…
Canta, e que o teu canto entre no meu sono
      Como um ai sem mágoas.

10 - 3 - 1918

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar