II

Quantos nos deram seu fiel amor
A quem não damos uma fiel memória!
Amaram-nos. Parecem uma história.
O invisível já não tem calor.

De vez em quando lembram, e uma dor
Esforça-se por não ser transitória.
Mas vem uma conversa, e foi-se a glória
De sentir ter quebrado este torpor.

Deus vos faça ou inscientes ou piedosos,
Ó mortos que julgamos que lembramos
E que entre nossas distracções e gozos

Inconscientemente abandonamos.
Mas foi sobre vós que os rumorosos
Ciprestes, deslembrados, derramamos.

11 - 4 - 1925

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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