Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.


Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.

Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo,
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do alto, e o olhar cobiçou
Uma cousa real que vá fruir.

No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.

Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há do sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só por saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro

Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós da sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.

Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza da alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a cousa procurada
É hoje só a cousa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.


[1919]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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