No vale umbroso, como
Se houvesse de esconder
Do mundo o meu assomo
De não lhe pertencer,

Abrigo-me à folhagem
Que trémula emusqueja
O chão da minha viagem
Para que nada seja

E ali, parte da paz,
Sem sorte nem dever,
Onde nada me traz
O que não quero ter.

Ali, sentado à calma,
Ali, talvez, talvez
Encontrarei minha alma
Tal como Deus fez.

24 - 8 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar