Um a um, vo-se-me os dias, 
Dia a dia, eu vou com eles... 
Olhos extintos, mos frias, 
Perpasso ao longo dos dias 
Como sombra que repeles... 

E porqu? porque me deixas 
Nesta frieza, em que foras 
Nem tenho para erguer queixas 
Cujo alvio me nem deixas, 
Ou contra mim j no toras...? 

No me vs Tu sofrer tanto 
Quanto gostas de me ver? 
Ou no sei eu, por enquanto, 
Valer-me de sofrer tanto 
Para chegar a vencer? 

No entanto, vo-se-me as horas 
Num sofrer tudo o que passa, 
S porque Tu Te demoras 
A atirar s minhas horas 
Uns restos da Tua graa... 

Levanto os olhos l cima, 
Sondo esse abismo estrelado, 
Baixo-os ao cho..., e o que anima 
Esse abismo l de cima 
Anima a colina e o prado: 

Ao Teu simples gneo sopro, 
Abrem-se os astros, as flores, 
E as cavernas como a escopro... 
Encapelam-se, ao Teu sopro, 
Vento e mar com seus furores... 

S a mim me no aqueces 
Com as bnos do Teu bafo! 
S dum ser vivo Te esqueces, 
E este ar, que j no aqueces, 
Me no ar, e eu abafo... 

Fosse eu pedra bruta! fosse 
Uma pouca de gua! um bicho 
Sem razo, feroz ou doce, 
Que virias!, nem que eu fosse 
Qualquer montinho de lixo... 

Fosse eu terra..., e dera flor) 
Fosse eu ar, mar... gozaria 
No sol Teu prprio calor! 
Que o cu d sis e o cho flor 
Porque o Teu amor lhos cria... 

Mas sou este ser humano 
A quem deste alma, razo, 
Corao, vontade.., e o engano 
De sonhar ser mais que humano, 
Contra a humanal condio! 

E por ser mais, que me deixas 
Na solido em que estou? 
Por ser Teu filho, me fechas 
Assim s comigo, e deixas 
Entregue ao no-ser que sou? 

No posso! Que farei eu, 
Tua obra-prima falhada, 
Que acusa quem na escreveu 
De lhe dar o que lhe deu 
E a deixar no terminada? 

Desde que Te amo, no sei 
Com nada mais contentar-me! 
Onde estarei? onde irei? 
Desde que Te amo que sei 
Que tudo o mais vo alarme... 

Corra que no corra o mundo, 
S sobre mim prprio giro 
Sem mais encontrar, ao fundo 
Dos mil caminhos do mundo, 
Que um eu contra quem me firo... 

Qualquer jornada que faa, 
Qualquer empresa que tente, 
Se me falha a Tua graa, 
Faa o que faa ou no faa, 
Que fao que me contente? 

Amar-me, j o no consigo; 
Fugir-me a mim, no no alcano; 
No suporto estar comigo! 
Se consigo ou no consigo, 
Da mesma maneira canso... 

Toda a largueza do mundo 
No me cura a falta de ar! 
Sufoco!, neste profundo 
Buraco negro do mundo 
Que s Tu vens alargar... 

E Tu no vens! e h que dias, 
H que sculos, Te espero, 
De olhos extintos, mos frias, 
Sem nada que me encha os dias 
Seno frio e desespero! 

Fervem-me no peito as queixas, 
As blasfmias, o clamor 
Do abandono em que me deixas... 
Mas gritos, blasfmias, queixas, 
Bem sabes que tudo amor! 

Bem sabes como verdade 
Que nada Te substitui, 
Ou Te empana a claridade, 
Em quem, por ver a Verdade, 
J tudo em volta lhe rui... 

Ai, que os irmos me no creiam, 
de crer! pois lhes advm 
Que soletrem mas no leiam, 
E s creiam, ou no creiam, 
Consoante lhes convm. 

Mas Tu, que me vs por dentro 
Como eles vem por fora, 
Tu, em cujo amor eu entro 
Nu at alma, por dentro 
Dum banho lustral de aurora, 

Tu, — no! no podes deixar-me 
Sem Ti, nem nada no mundo! 
Para qu todo este alarme? 
Mas como que ousas deixar-me 
Sequer um breve segundo? 

Pois no vs que j pertences 
Ao amor com que me enleias? 
No me enleies, ou no penses 
Que eu, sim, mas Tu no pertences 
s nossas comuns cadeias! 

Livra-me de Ti de vez, 
Se Te no queres cativo 
Do meu amor! Ou no vs 
Que isto nem morrer de vez 
Nem, tambm, sentir-me vivo? 

Em Ti, por Ti amo tudo! 
Se Te vais e em vo Te chamo, 
Fico cego, surdo, mudo... 
Faltas-me e falta-me tudo, 
Que afinal s a Ti amo! 

Pois bem, deitar-me-ei por terra, 
Nu no cho nu, sem conforto 
Seno o cinto que enterra 
Seus frreos dentes na terra 
De minha carne e meu corpo, 

Deitar-me-ei dias e noites, 
No provarei gua ou po, 
Fustigar-me-ei com aoites, 
Encherei dias e noites 
Gritando a Tua traio, 

At que venhas! at 
Que, de novo, a Tua graa 
Me d calor, luz, ar, f, 
Me ressuscite! ou at 
Tudo que sou se desfaa... 


In Poesia II - Obra completa , Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001
José Régio
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