No fim do mundo, onde a paisagem
Forçosamente deve ser
Aquilo que merece a viagem
Com que nunca lá vamos ter,

Está um poço (assim o diz
Num título um scríptor inglês)
Onde não sei se se é feliz
Ou se se morre enfim de vez.

Pois bem. Por artes de magia
Trouxe esse poço para casa.
Uso-o em meus sonhos, noite e dia,
Desço por ele à água rasa.

E ali, deveras separado
Do mundo, de outros e de mim,
Cuspo na água com agrado
E vejo os círculos ter fim.

Todos nós temos que servir
E os homens que andam ao trabalho
Na superfície da ilusão
Não gozam com melhor baralho.

Constituí-me proletário
Desse poço para cuspir
Do meu baloiço solitário.
Que acabará por lá cair.

28 - 2 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar