I

Homem, estranha encarnação da Natureza,
Soberbo, criação efémera, poderei eu olhar
Para ti indiferente e, calmo observar
Tua alegria e dor, tua luta no mundo
E teu último e longo cerrar de olhos na morte?
Gosto de olhar os teus modos, de contemplar
Teus lugares, de espreitar teu lar, de encontrar
Nos teus pequenos actos algo de grande.
Pois posso em mim descobrir um sentido sublime
De que nasci para pensar, para sentir
E não para olhar em vão o que acontece;
Em momentos de calma e repouso eu senti
Uma nobre comoção e uma desusada alegria
Brotou em meu peito, e também gratidão,
Trazendo aos olhos a surpresa das lágrimas:
Donde vem não sei, mas quando me detenho
Neste todo conjunto e envolvente
Vejo por trás uma enorme força e poder
Cujo rosto é como música, invulgar e plena,
Que eleva meu coração e ultrapassa
Os limites da razão humana; música essa
Que me envolve todo num esquecimento
Das coisas banais e das ideias banais como elas.

II

Oh, homem...
Não foste feito para sofrer, louco insensato,
No teu vero estado, tua mente não foi destinada
A tentar captar os limites do espaço sem fim;
Por que havias tu, sem te conheceres a ti mesmo
E sem conheceres a terra, de investigar o além,
As diferentes mudanças, vida e morte e tudo
Numa constante pesquisa? Oh, tu não foste feito
Para o pensar inútil; teu ser não está sintonizado
Para conter a exaltação do pensamento ou dominar
A criação; contudo, mesmo assim és muito grande!
Não escravizou tua mente a terra inteira?
Não dominas todos os animais, tu próprio um deles?
Oh, como tu és estranho! Pudesse eu explicar
Tua ínfima acção ou medir teu pensamento
Ou prender teu coração, seria eu próprio imenso!
Tivesse eu força épica, poderosa inspiração,
Eu te cantaria, mas o sublime não se ajusta
À alma moderna. Apenas gostei de pensar isto.

III

Foi naquele belo país
Que orla o azul Tirreno, ou nas praias
Da negra Arábia, ou na linda terra Ilíria,
Ou onde nasceram as hostes bélicas que em filo
Se defrontaram; ou onde se ergueram talvez
Os rudes Godos, os brutais Ávaros ou os Francos
Cruéis, ou donde proveio a raça enorme de
Boadiceia? Temas de mais difíceis para mim.
Não, cantarei um castelo há muito em ruínas
Que outrora contemplei na bela terra de Espanha;
Era um castelo antigo, daquele tempo de antanho
Em que a forte raça ibérica não era vencida
E não sucumbira ainda ao jugo dos anos. Agora
O tempo destruiu-lhe o poder. Mas deixem-me
Contar o meu conto simples em palavras simples,
Com que possa, enfim, aliviar minha alma triste.

IV

Um estilo humilde
Serve melhor a um pequeno espírito; não vou querer
Captar grandes coisas; não vou contar sobre almas
Ou lutas e contendas e horrendas facções fendidas
Em átomos sem fim! Sei cantar melhor
Um tema menor, como um velho castelo
Que outrora avistei na bela Espanha, coroando
Um alto monte escarpado entre espessa folhagem
Adornando e encimando o vale que dominava.

V
Num dia de verão, quando o dia escaldante
Vibrava nos campos, quando as casas brancas
Brilhavam mais brancas e o canto das aves
Penetrava a calma da natureza, pus-me
A caminho de um vale, em terra espanhola.
Era um belo cenário, com a relva debaixo
De verdura exuberante e fértil, enfeitada
De flores, e as encostas cingindo a planície
Semelhantes a filas de assentos sobrepostos
Dentro dum circo romano. Perto de mim
Havia uma colina de espesso arvoredo
Tendo no cimo os restos tristes duma ruína
Que mal se via e nem um caminho parecia haver
Através da folhagem; contudo pensei que podia
Pisar com proveito aquele chão inexplorado.

VI

Lembro-me agora
De ter ouvido uma história conhecida em todo o país.
Um velho me contou, lembro-me bem,
Um homem velho, que pertencia àquela aldeia
Que branqueja além da colina, dizendo
Que seus pais conheciam esta história simples.
O velho contou-a e, enquanto falava,
Chorava. Também chorei a ouvi-la. Dizia então
Que, quando os muros do castelo, que agora vejo,
Estavam só meio em ruínas, aqui viveu uma donzela.
Ela era a última daquela longa estirpe, a altiva
Estirpe de cavaleiros espanhóis, e aqui vivia
Sozinha; seu pai buscara a fama no mar
Alteroso e morrera — sempre o forte cede
A um mais forte — e também a sua mãe
Deixou a terra depois de longo sofrer.
A donzela chamava-se Dolores — ah, esse nome,
Esse nome estranho e triste! Ah, Dolores!
Aqui vivia um primo também; pertencia
A um ramo da família e estava igualmente
Desejoso de fama, de amor, sem temer a morte.
Ela amava-o e ele amava-a também; os dois só
Se tinham um ao outro na terra, e o céu
Podia zangar-se ou sorrir, a sorte ser adversa —
Mas o que era isso para eles? De manhã passeavam
Nos vales floridos e nas margens dos rios
Falando dos seus sonhos, ele alto e de rosto altivo,
Ela frágil, encostando-se ao seu ombro, junto a ele.
E, passada assim a manhã, quando o sol
Ia alto no céu, tornando as árvores mais verdes,
Um abrigo os esperava e lá descansavam
Falando de ninharias ou da guerra e do amor.
Quando a noite caía partiam e lá iam
De novo campo fora, enquanto descia fresco
O manto lento da noite sobre a terra, e assim
Palmilhavam os vales, de volta a casa.
Mas, ah! Que bom era quando a noite chegava:
Então à luz da lua, andando com cuidado
Sobre as ruínas contíguas, voltavam a caminhar
E a sonhar. Estas pedras quebradas lembravam
Ao jovem os feitos realizados por aqueles
A quem o castelo pertencera e, no seu espírito,
A mão já tinha uma lança contra o Mouro invasor;
Ou então os seus olhos captavam em sonho o ferver
Da batalha e ele percorria, em alegres passadas,
A terra esboroada, enquanto ela, sentada em adoração
Admirava o seu porte animado; também ela
Sonhava com a fama do seu belo cavaleiro
Que, levada de boca em boca, chegava
Às praias da longínqua Albion. Assim passavam
Dias e noites entre as ruínas do castelo amado;
Mas a ele parecia que a fama o chamara
Para a batalha e, num dia de verão
Despediu-se dela, pois ouvira dizer que
Os vizinhos Lusos iam avançar sobre os Mouros
Odiados. Beijou-a junto a uns degraus,
Não exactamente, mas uma espécie de degraus
Que ladeavam o caminho que o pisar fizera, onde
Eles costumavam sentar-se, e depois partiu,
Virando-se a cada passo e acenando-lhe,
A ela que ficou cheia de alegria e dor.
Ele juntou-se à hoste Lusa, aquele exército
Que o jovem Sebastião comandava alegremente e que
Cedo chegou à terra ansiada, antes que os cavaleiros
Jazessem esfacelados e espalhados no deserto árabe.
Ela ouviu sem chorar, pois o corpo vencido
Não fora encontrado, nem ele tinha fugido
Para onde pudesse voltar; e a sua mente entristecida,
Torturada de esperança e de medo, logo mergulhou
Em branda loucura, que ninguém entendia.
Umas vezes sorria, outras ficava taciturna;
Mas nunca chorava. E diariamente ela ia
Sentar-se em silêncio nos toscos degraus.
Aí trabalhava ou sonhava; de vez em quando
Olhava todo o caminho e voltava a trabalhar;
Então, quando algum som distante lhe chegava
Ao ouvido, inclinava-se, de cabeça à escuta
Numa pose triste, enquanto no semblante surgia
Uma triste expressão de expectativa,
Que logo passava, deixando-a desiludida.
Contudo não desistia e quando o dia
Mergulhava lento no escuro, ela desaparecia —
Saía dali mas ficava sentada até à meia-noite,
De coração apertado, à pequena janela
Donde avistava todo o caminho. Depois ia dormir,
Dormir um sono agitado, sonhando com ele.
E assim, em desesperança, foi envelhecendo,
Sempre em mansa loucura, até que por fim
Morreu e, ao morrer, caíram pelo rosto pálido
As duas primeiras lágrimas de toda a dor
Silenciosa. Mesmo quando a levaram a enterrar,
Mesmo quando na terra escura descia o caixão,
Saindo do fundo do caminho íngreme,
Um velho surgiu, cambaleando na pressa dos passos.
Era ele... E aqui, sem mais relatar, os que
Contavam a história soluçavam.
Frágeis coisas terrenas,
Inúteis e frágeis, a menos que sirvam para apontar
A sua estranha moral ou, pelo menos, tornar evidente
A pequenez da vida e do amor, ao mascarar
A imensa vaidade humana, cruel e constante.

VII

Esta era a multidão alegre. Mas havia
Alguém de quem não falei; era na verdade
Muito diferente deles; não tinha a força
De que sempre se gabaram; o seu aspecto
Não era belo e a cabeça e os membros disformes
Provocavam a troça de todos. Além disso
Quando falava gaguejava e as suas palavras
Pairavam, como as de um louco, na boca fina.
Ninguém lhe dirigia uma palavra amiga; só,
Ele vagueava através dos campos; as aves
Não fugiam ao tocar-lhes, pois ele era bom.
O corpo frágil e a mente insana não eram
Muito aptos para as armas e ele próprio detestava
O prazer do homem pela carne do homem,
Quando ouvia relatos de batalhas.

VII

Ele aprendera
A contemplar a Natureza; e os campos, as flores
E o trabalho divino e humano, segundo pensava
Não tinham significado; ouvia às vezes atento
O homem, escutava em sossego estranhos sons
No silêncio da noite; até que um dia fatal
Ao olhar, o súbito sentido de tudo iluminou,
Com a violência do raio, seu espírito aberto
Até se horrorizar diante dele. Agora sabia, mas
A sua ignorância era mais profunda que antes.

IX

Então sobre a alma e a mente insinuou-se
Um cansaço triste da vida, que se estendeu
Da mente à boca, aos membros, trazendo a loucura
E um silêncio soturno e apatia.

X
 
«Afasto-me de ti,
Minha terra natal, com a dor de quem se encosta,
Gelado e de olhos turvos, à popa do navio
Olhando com um medo deconhecido
O ímpeto das águas e o largar da costa.
Mas na bruma do impulso inda aparecem
Lembranças da vida deixada, doces como soa,
Ao ouvido solitário, a melodia interrompida
De alegres canções distantes, que ora o vento
Apaga, ora deixa passar, à medida que afrouxa.»

XI

Tal como uma árvore, cresceram firmes e silentes
Seus feitos logo soaram por toda a região

VIII

Até chegarem ao extremo, quando eles tombaram,
Pois eram humanos; rápida e lenta, contudo,
Foi a própria queda temida; isto porque
Quanto mais alto se sobe, maior é o tombo.
E porque eram apenas homens, assim caíram.
Até onde tinham subido pela coragem, daí
Se despenharam, tal como o ousado filho do sol
Que, com carro mal orientado, criou à terra
Vários prejuízos; a quem Jove todo-poderoso
Castigou, escurecendo dum só raio seu pai-sol
Que o fez cair de lá em fuga precipitada —
Caiu a pique e no seu rasto impetuoso
Arrastou orbes menores; caiu do alto
Sobre as nuvens, de nuvem em nuvem,
E das nuvens, através do ar nebuloso,
Despenhou-se ruidosamente naquele rio
Que ainda leva o seu nome e do qual a água
Aspergida acalmou o pó nos desertos da Líbia.

XII

Coisas terrenas,
Oh, são inúteis e frágeis, mas nelas
Me inspirando, posso esquecer as muitas angústias;
Todo o pensar que dói, as lágrimas vertidas por outros,
Todas as dores e todos os desejos nelas mergulho.
Ao pensá-las, mais dói o pensamento, daí que
Embora temendo, desejo fechar os olhos em morte breve,
Só que mais sofro ainda, pois não sei o que é a morte.
Oh, mistério do homem, que triste tu és
E tão profundo! Que horrível é teu rosto
Marcado pelo véu da vida mortal!
Profunda de mais p’ra dizer, grande de mais p’ra pensar,
A vida humana, e medonha para a razão
Que a não pode entender. Pensa bem em ti,
Teu corpo e tudo envolvido — alegrias,
Angústias, tudo — não há algo grotesco
E terrível para além da expressão em ti?
Por isso não digas: «são só coisas da vida,
Coisas de pouca monta», pois as coisas mortais,
Cheias da tristeza de todas as coisas mortais,
Têm-me ensinado muito; delas aprendi a ter
Doce-amargos pensamentos, aprendi a chorar
O cruel destino humano. — Posto assim na terra,
Abalado por mil paixões, cuidados e mágoas
Vendo todos os prazeres, de bom grado aceites —
E contudo regido por lágrimas; mesmo louco nascido,
Erguido ao ponto mais alto do pensamento,
Lançado na luz do pensar e depois, por fim,
Mergulhado na escuridão eterna.., O quê! Morrer!
É decerto triste afastar de nós doridamente
Este trajo de vida e permanecer num frio interior;
Mal se pode acreditar, O quê! Que este corpo
Vibrando com as sensações para sempre fique frio!
E que estas veias, que levam o sangue que faz
O prazer de viver, morram também e partam? Pensar que nós — Nós em cujas veias latejantes o prazer da vida
Sempre corre, borbulhando em agradável balanço,
Temos de voltar ao nada e jazer mortos e frios!
Hirtos e frios! É terrível pensar que ficamos assim!
Eu, por mim, não desejo o céu, a não ser que
A morte me prendesse aos ventos imensos
Com a capacidade de voar em sopro; desejaria, sim,
Sentir para sempre o sabor da terra,
Sentir o brilho da vida, ver vivamente,
Como se com os olhos, as múltiplas coisas que alegram
A visão sensual, perceber por toda a parte
O cheiro disperso de todas as flores, escutar
Os sons conjugados de um mundo poderoso.
Mas já que assim tem que ser, não queria perder,
Mesmo torturado pela dor, este corpo radioso,
O prazer dos sentidos e esta mente sem limites,
Estes instintos só meus e estes pensamentos
Que vacilam percorrendo o futuro.
Ai de mim! Perder, bem consciente da perda,
Os mais doces prazeres da terra abundante,
Os ventos perfumados que falam pela primavera,
A visão das flores estivais, ou a voz do rio
Distante correndo por entre as árvores.
E se tudo aqui na terra é pó e nada
E irá perder-se num qualquer fim incerto,
Perdido para sempre, então para quê as criações
De espíritos superiores, para quê os próprios espíritos,
Para quê a fama de Milton ou de Homero?
Não, nada morrerá! Tudo vive e viverá
Contido numa imortalidade além do pensamento...
Perco a expressão no excesso da minha ideia
E as palavras não acompanham o desejo de dizer
Coisas que não alcanço. Mas não sei o que é a morte.
Medito, mas o meu ser falha. Estas flores,
Estes campos de verão, as aves cuja canção festiva
Perfuma o ouvido — tudo é para mim
Uma imensa alegria que enche a alma louca,
Inebriada em sua tristeza,
Até transbordar, até que as lágrimas
Indesejadas, incontroladas brotem dos olhos —
E então a vida se acalma. Ah, campos e flores,
Vós que encantais os meus sentidos, posso pensar
Que irei perder-vos e vós a mim?
Que um dia me vou separar de vós, que eu
Não mais vos encontrarei? Ah, tudo perdido!
Aqui reside todo o pesar! Com prazer morreria
Se com o sopro e o ser não fosse perder
Estas coisas terrenas que me são pena e prazer,
Que me enchem a alma de doce e triste alegria.
Morreria de bom grado — sim — se a morte não fosse morte
Ou se... não sei bem... Meus pensamentos pesados
Deixam a mente cansada e não chegam aos lábios,
Fugindo ao esforço de os escrevinhar.

XIII

Tudo o que existe na terra e é uma parte
Do grande universo visível, achava que era,
Ao mesmo tempo, verdadeiro e natural.
Mas agora acordei para o vazio
Da sua verdade. Agora sinto tudo vivo
Em mim. Meu corpo e alma mantenho à parte,
Pois um deixo para trás e com o outro subo
Aos pináculos do êxtase.
Há na Natureza algo que ultrapassa
Minha pobre expressão e face ao qual até o pensar
É fraco e pequeno; que grande deve ser isso!
Não sei o que é, mas posso sentir
O seu poder e ouvir-lhe a voz em tudo o que há.
Assim, quando cedo passeio pelo campo,
Isso encontra expressão em qualquer paisagem —
As folhas de erva, as flores variadas
Que brilham na relva, as plantas, as árvores,
As formigas caseiras, o afã das abelhas, as aves,
Os simples rebanhos e as manadas pastando.
Nada é silente, pois tudo pode falar
E tudo exprime apenas aquela voz
Que está na Natureza, desde o ínfimo átomo
Que só a mente descobre, até à voz tremenda
Do mar revolto rugindo, e ao poder terrífico
Da tempestade que sacode as árvores gementes.
Nada é silente: falam os ventos que avançam
Temíveis e fala também o curso suave do rio.
Nem precisavam falar; ao ouvido da mente
As vozes são, só por si, perceptíveis —
Então se o que vejo sabe falar tão bem,
Muitas coisas também falarão, sendo invisíveis.
Dia, manhã, tarde e noite vêm-me falar;
Todos me contam segredos e todos se associam
Para exprimir a grande voz da Natureza.
E ainda que tudo possa ter uma voz
E ainda que essa voz me pareça muito maior
Que qualquer outra, é contudo estranho dizer
Que o silêncio fala mais alto que qualquer coisa.
Quando o sono ou a morte apaga o mundo em redor,
Uma voz imensa em mim actua em sons
Medonhos, terríveis, e desperta na mente
Um sem-número de pensamentos, fazendo-me ver
Como é fraco o homem; depois, num sussurro
De estranho poder, que o peito pesa e perturba,
Diz-me como o homem é grande e traz lágrimas
Aos olhos medrosos. Quando me recolho
Dentro de mim, e penso estar só,
Eis que de dentro me vem essa voz terrível
E se ergue mais alto até ser torturante. Dela
Não posso fugir, pois é a minha consciência.
(...)
Oh, voz imensa, de quem és a voz? De quem
Esses sons que falam no vazio e se erguem
Sobre todos os sons, acima do grande poder
Da tormenta, à qual em força o mar tem de render-se?
E quem és Tu cujo poder atravessa toda a terra,
Todo o espaço, o tempo e toda a eternidade?...

XIV

Mas eu aprendi, encerrado em minha alma,
A olhar e sentir a alma íntima das coisas,
E daí guardei vagas intuições. A sensação,
Pensava — pois sensação é pensamento sem forma —
E dentro de mim uma melodia
Do pensamento vagueava, como mão descuidada
Que toca, em dedilhar ocioso, as muitas cordas
Duma harpa.
Por fim senti
Um dia uma alegria sem causa, porque vi
Por todo o lado o vestígio de uma Coisa
Que nunca morre, um Ser que atravessa
Tudo o que é, cujo pensar em tudo é visível.
E chorei de alegria ao descobrir que
Esta alma que dá o brilho ao sol,
Que faz florir a rosa, que move o rio,
Que agita o mar e habita no íntimo do homem,
Que dá vida ao mundo e brilha nas estrelas
É Um; e descobri que tudo o que existe
Em diferentes formas, são corporizações
Desta imensa alma que faz vibrar o universo.
E eu, agora sábio, vi, senti, sem me deixar
Manchar pelo pensamento, a riqueza da vida;
E aprendi a olhar para todas as coisas
Como formas duvidosas, percebendo
Nelas essa alma que interpenetra
Os complexos caminhos e labirintos
Do homem e de todo o mundo, da qual eles são
Apenas as formas materiais, tal como este corpo,
Este corpo mortal que, ao partir, logo apodrece.
Poderei eu ser mais feliz? Haverá algo maior
Que a presença deste pensar sublime
Que eleva o meu coração? Sentir e tocar
A mágica essência-espírito que confere
Seu pensar e amor a todas as coisas; que habita
Igualmente no campo, no mar, na obra humana,
Que nunca abandona a luz de eternos sóis
Nem jamais o fim sombrio de mundos perdidos.

xv

O que é uma flor?
Para ti uma coisa que abre, floresce e morre,
Talvez um símbolo das coisas humanas; para mim
Um átomo visível de cor da eterna vida.


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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