Há tantos deuses!
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes —
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes —
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista…
Sim, há muitos deuses…
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui pra fora..
9 - 3 - 1930

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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