Eu conheo uns olhos negros
Que brilham como diamantes,
Cheguei-me ao p deles
E fiquei tal como dantes!...

Eu conheo uns olhos verdes
Que alumiam cintilando,
J os tenho at beijado
Mas nunca os fiquei amando!...

Conheo uns olhos azuis
Como outros ‘inda no vi
Ferozes, belos… Por eles
Jamais amor eu senti!...

Tambm conheo uns castanhos
(Que so os teus minha amada)
Bem vulgares mas pelos quais
Minh’ alma anda apaixonada

Conheo uns cabelos louros
Que so d’ouro precioso
J lhes sorvi o perfume
Mas no fru nenhum gozo!...

Conheo uns cabelos negros
De bano o mais retinto…
Passo a minha mo por eles
Mas nada… mas nada sinto!...

Tambm conheo uns vermelhos
Os quais j algum mataram.
Apesar disso os tiranos
Nem sequer m’impressionaram.

Mas eu sei porm d’uns outros
Do castanho mais vulgar
Cuja dona graciosa
Hei-de sempre idolatrar.

To sedosos eles so,
To finos, to abundantes
Que no mundo no existem
Por certo outros semelhantes!...

Sei de muita mulher bela
Que no posso tolerar
S a ti, a ti, a ti meu anjo
que hei-de sempre amar!...

 


21 de maro de 1907
Mário de Sá-Carneiro
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