Ah, como o sono é a verdade, e a única
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
‘Sperança, és a ilusão a apodrecer!

Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.

Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sono, a janela que, entreaberta,

Só vaga sombra e som do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente.
E a alma se desfaça como um feixe
Atado pelos dedos de um demente...

18 - 5 - 1923

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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