Sonho. Como uma asa que tocasse
O onde estou, ou só o vento viesse
Porque essa asa, rápida, passasse,
O seu enleio assim se tece.

Sonho. Não sei que sou, nem o que fui.
Assim se sonha. Durmo sem dormir;
E há como um rio que indistinto flui
Entre eu pensar e eu sentir.

E nesse rio como algas mortas
Vai o que quis fazer de quem eu sou...
Memórias, sonhos, sombras, como, às portas,
Murcham as folhas entre o pó.

10 - 10 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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