Quanto fui peregrino
Do meu próprio destino!
Quanta vez desprezei
O lar que sempre amei!
Quanta vez, rejeitando
O que quisera ter,
Fiz dos versos um brando

Refúgio de não ser!...
E quanta vez, sabendo
Que me estava esquecendo,
E que quanto vivi —
Tanto era o que pedi —
Como o orgulhoso pobre
Ao rejeitado lar
Volvi o olhar, vil nobre
Fidalgo só no chorar...

Mas quanta vez descrente
Do ser insubsistente
Com que no Carnaval
Da minha alma irreal
Vestira o que sentisse
Me vi como não sou
E tudo o que não disse
Os olhos me turvou...

Então, a sós comigo,
Sem me ter por amigo,
Criança ao pé dos céus,
Quanto fui peregrino
Do meu próprio destino!
Quanta vez desprezei
O lar que sempre amei!
Quanta vez, rejeitando
O que quisera ter,
Fiz dos versos um brando

Refúgio de não ser!...
E quanta vez, sabendo
Que me estava esquecendo,
E que quanto vivi —
Tanto era o que pedi —
Como o orgulhoso pobre
Ao rejeitado lar
Volvi o olhar, vil nobre
Fidalgo só no chorar...

Mas quanta vez descrente
Do ser insubsistente
Com que no Carnaval
Da minha alma irreal
Vestira o que sentisse
Me vi como não sou
E tudo o que não disse
Os olhos me turvou...

Então, a sós comigo,
Sem me ter por amigo,
Criança ao pé dos céus,
Pus a mão na de Deus.
E no mistério ‘scuro
Senti a antiga mão
Guiar-me, e fui seguro
Como quem come pão.

Por isso, a cada passo
Que meu ser triste e lasso
Sente sair do bem
Que a alma, se é própria, tem,
Minha mão de criança
Dou na de Deus e vou,
Sem medo nem ‘sperança
Para aquele que sou.
Pus a mão na de Deus.
E no mistério ‘scuro
Senti a antiga mão
Guiar-me, e fui seguro
Como quem come pão.

Por isso, a cada passo
Que meu ser triste e lasso
Sente sair do bem
Que a alma, se é própria, tem,
Minha mão de criança
Dou na de Deus e vou,
Sem medo nem ‘sperança
Para aquele que sou.

7 - 10 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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