Hoje, cá dentro, houve festa... 

Alcatifei-me de veludo azul, 
fiz pintar a Ternura os meus salões, 
e pus cortinas de tule... 

Mas não chamei grandes orquestras 
nem um clarim, a proclamá-la: 
mandei tocar, em mim, 
uma música assim de procissão 
que levou os meus sentidos 
a nem sequer se sentirem, de embevecidos... 

Hoje, cá dentro, houve festa... 
E, se houve festa e veludos, 
e musica azul, e tudo 
quanto digo, 
foi somente porque a Graça 
desceu hoje a visitar-me. 

E eu, que vivo de Infinito 
as raras vezes que vivo; 
eu, que me sinto cativo 
no pouco espaço que habito,
onde a presença de dois,
por ser demais, me embaraça, 
deixei logo o meu lugar,
para dar lugar à Graça. 

Não tinha pés: tinha passos;
não tinha boca: era beijos;
não tinha voz: era como 
se o folhado e a maresia 
se tivessem combinado 
pra cantar «Ave, Maria...» 

Foi então que vivi; então que vi 
os poucos metros que vão 
da minha Serra às Estrelas: 
é que eu, sendo tão pequeno 
que nem às vezes me encontro, 
andava ali a pairar, 
e o meu fim estava nelas 
e o meu princípio no Mar. 

A Graça, cá dentro, era 
a varinha de condão
que me guiava no Ar. 
E que bem me conduzia!
 Parecia que eu sentia 
as mesmas ânsias e a alegria 
da Noite quando, no ventre, 
já sente os gritos do Dia. 

E eu me vi (que não sei bem 
se era eu ou se era a Graça 
quem p’los meus olhos olhava); 
e eu me vi, que me tomava 
em tons de rosa esmaiada 
—barra da saia da Tarde 
que ainda bem não morreu 
e já de si tem saudades; 
e fui murmúrio do Mar 
que reza o que eu lhe ensinei; 
e fui perfume exalado 
dos matos da minha Serra 
— perfume que, modelado 
às formas que tens, sem tê-las, 
mostrou teu corpo perfeito: 
esse perfume que eu era 
desenhava-te o perfil;
por olhos, tinhas Estrelas;
 meu carinho de pensar-te 
era a curva do teu peito. 

E a minha varinha maga 
do perfume fez um grito 
da Serra, ébria de si; 
e eu, nesse grito, subi; 
bati às portas do Céu, 
mas era cedo demais 
e caí. 

Para pairar, em poalha 
que não é oiro, mas sim 
a palavra com que Deus 
fechou-me as portas do Céu; 
beijo a minha criação 
quando beijo a minha Serra; 
sou passadeira de mim 
e nego, na Luz que sou, 
que seja feito de terra. 

Ai quem me dera morrer! 
Liberto do que não sou, 
viver a única vida 
pra que Deus me destinou! 
Dá-me a vida que me mate, Senhor! 
Fica-me dentro pra sempre, 
a guiar-me pelo Além! 

E tu perdoa, se eu morro, 
que é p’ra nascer, minha Mãe! 


In SERRA-MÃE , Ática, 1991
Sebastião da Gama
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