Eu morava à beira-rio
E tinha que atravessar
Mas o barqueiro sadio
Estava sempre com fastio
De ele mesmo me levar;

Por isso a filha é que vinha
Remar-me para o outro lado.
Era forte, linda e tinha
Remando um ar de rainha!

Falávamos a sorrir
De quanto vinha a calhar
E, quando era para rir,
Ríamos de nos ouvir
E eu comia o seu olhar.

Vejo ainda, vejo ainda,
Como esse corpo tão certo
Se inclinava, — mas que linda! —
E aquele olhar nunca finda
No meu coração deserto…

Meu amor sinto-me quente
No alvoroço de te abraçar.
Adoro-te realmente.
Mas há um rio de repente
E tu não sabes remar.

Perdoa, amor: não abarco
Mais que uma vaga maneira
De ser teu, sinto-me parco.
Meu coração vai num barco,
Que o vai levando a barqueira.

9 - 11 - 1935

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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