(Monarquia. Quando não sabíamos o Padre        Nosso, o senhor professor batia-nos com
                                 o ponteiro nas mãos, aos gritos: «Amai-vos       uns aos outros! Amai-vos uns aos outros!»)


A palavra Deus.
Recebi-a
já esvaziada
de rituais e incenso,
só o nada com Bach
onde cabia
tudo o que lhe metíamos dentro,
sangue nos pés de rasgar matos,
sol doente,
a névoa dos rios sem destino
— neste mundo que os rumos exactos
tornam mais incoerente.

Entretanto no pátio da escola,
saltos de luz em espelhos
os outros meninos riam
por verem tudo explicado
com uma sílaba tão fácil
que só magoava os joelhos
(mas depois brincava-se nos intervalos.)

Eu não.

Preferia viver rodeado de mistérios.
E acrescentá-los.


In Memória
José Gomes Ferreira
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