Dai-me música, só música, não a vida.
      Leva a hora e o amor
Com os papéis de cena e as máscaras, na vida
      Do último actor.

Ah viver só em cena e ficção
      Não ter deveres nem gente
Sonhar até nem se sentir a sensação
      Com que se sonha e se sente.

Porque só viver é que faz mal à vida,
      Só amar, querer não existe.
Para quem tira a máscara e, vê na sala despida,
      Que só a ficção não é triste.

1909

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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