Amei-te outrora, antes de ter 

Depois aconteceu-me a alma
E eu nunca mais te soube ver.

Eras da altura do meu sonho
Teus cabelos pretos mas luar...
E tudo isso correu p’ra o mar
De eu ter hoje este ar tristonho.

Tua alma era um corpo delgado...
Tudo isto foi longe de aqui...
Ainda na alma em mim sorri
O teu último olhar amado.

Depois separou-nos o Espaço...
Tu és ainda irreal e vives
Em grandes, lúcidos declives
Que a mãe de Deus tem no regaço…

Choro se te recordo... Vou
Ter contigo às portas de Deus...
De vez em quando olho p’ra os céus
E apareces no que sou...


 espaço deixado em branco pelo autor.


[24-2-1915]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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