Amarelecer
Do poente
Morto sol a arder
Rente
À alma do entardecer.

Hora calma,
À tona da mágoa...
Mão de santa, palma
Fonte de água
Caindo-me n’alma.

Hálito de luz
Moribunda...
Tarde, cruz...
Lagoa funda...
Tédio a flux...

Cinzas... desapego...
Boca pálida...
Porto cego...
Alma cálida
Sem sossego...

Rouxinol
Morto, no rio...
Boca em estio
Como sol..
Olhar frio...

Horizonte
Todo cinzento...
Rumor de fonte
Dor insonte
Do momento.

Vontade morta
Antes de ousar...
Dorme absorta
Em não sonhar...
Nada importa...

 

22 - 6 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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