Mote: Teus olhos, contas escuras,
                                São duas Ave-Marias
                                Do rosário de amarguras, 
                                Que eu rezo todos os dias.

 

Quando a dor me amargurar,
Quando sentir penas duras,
Só me podem consolar
Teus olhos, contas escuras.

Deles só brotam amores,
Não há sombra d’ironias,
Esses olhos sedutores
São duas Ave-Marias.

Se acaso a ira os vem turvar,
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
Do rosário d’amarguras.

Ou se os alaga a aflição,
Peço p’ra ti alegrias
Numa fervente oração
Que eu rezo todos os dias.

 


31-3-1902

In Poesia do Eu , Círculo de Leitores, edição de Richard Zenith, 2006
Fernando Pessoa
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