Quem saberá «signora» onde terá nascido esse belo lírio branco?

                                                     Velha comédia italiana

Eu não sou o fatal e triste Baudelaire,
Mas analiso o Sol e descomponho as rosas.
As rijas e imperiais dálias gloriosas, —
E o lírio que parece o seio da mulher.
Mais ao pé, tenho as cartas de namoro.
E uma Bíblia mui velha, onde no fim...
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro
Tendo, num grande pé, chinelo mouro,
E vestido com ar de mandarim.

Defronte, ri, sinistra, uma caveira,
A que pus uns bigodes com cortiça,
E dum truão a loura cabeleira...
Que me acompanha a rir da vida inteira,
Como um Marte do Papa ajuda à missa.

Ao lado mora-me um vizinho manco,
Que faz dos sinos o único regalo...
E goza da união dum saltimbanco.
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noite canta como um galo.

Defronte, uma vizinha costumeira,
Doce lírio, que treme a um vento vário...
Que canta a manhã toda e a tarde inteira.
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canário!...

Toda a  noite o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indiscretos,
E canta, numa voz que abala os tectos.
Ao som das cambalhotas do palhaço.
E assim eu vivo só numa trapeira,
Onde as penas das pombas deixam rastros...
Exposta todo o dia à soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira.
Nas vizinhanças límpidas dos astros.

 


In Claridades do Sul
Gomes Leal
A BELA FLOR AZUL
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